Jazz XXI (portuguese)

Jazz XXI

Como o título deste álbum nos dá a entender, o crescimento musical do seu protagonista ter-se-á processado com base em referências bem definidas e – reconheça-se – bem distintas e inspiradoras. As figuras mais claras nesta moldura são, de um lado, Lee Konitz e, de outro, David Binney. Mas o que mais impressiona neste jovem de vinte e dois anos é a certeza de que, uma vez ouvida esta sua estreia discográfica, jamais poderá a sua voz ser confundida com a de qualquer outro saxofonista. A fluidez com que Ben Van Gelder faz “escorregar” o seu saxofone de umas notas para as outras e o seu timbre simultaneamente “chorado” e jubilatório são características que, no seu conjunto, constituem já algo muito próximo de uma imagem de marca, de uma forma de expressão que é, como acima defendi, perfeitamente identificável na multidão de saxofonistas que o jazz nova-iorquino nos últimos anos nos tem dado a conhecer.

Se é grande o interesse que me desperta o saxofonista-líder, não me agrada menos a forma como a sua música é servida por cada um dos músicos da sua formação. O pianista Aaron Parks (27 anos) é o mais velho e também o mais conhecido destes músicos. Parks é um pianista cujas capacidades técnicas, mais do que aquilo que ele muitas vezes com ela faz, sempre me convenceram, desde a primeira vez em que ouvi, ao lado de Terence Blanchard. Ora esta é talvez a gravação na qual Parks, mais contido do que nunca na sua tendência para “açucarar” demasiado a receita, mais seriamente conquistou o meu ouvido e a minha admiração.

Com um contributo menos presente do que o do pianista, o vibrafonista Peter Schlamb desempenha, no entanto, um importante papel na coloração de grande parte desta música. Van Gelder parece, aliás, ter propósitos bem concretos na forma como decide utilizar o vibrafone, o que é em grande parte determinado pelo carácter “extensivo” de uma boa parte da sua escrita. Este é um aspecto que se torna bem claro logo na faixa de abertura do álbum, uma peça que bem se afasta de simplificações do tipo tema-solo(s)-tema. A mesma tendência para compor secções ou “andamentos” bem distintos dentro do mesmo tema volta a verificar-se em “Retreat” (uma pequena delícia cuja segunda parte se desenvolve sobre uma assombrosa força harmónica ditada pelo piano de Parks), bem como na faixa título, que encerra o disco, na qual, após uma intro a cargo do sax, trompete, trombone e clarinete baixo, vale a pena seguir bem de perto a troca de galhardetes entre Van Gelder e o convidado Ambrose Akinmusire – um fascinante diálogo que fez de “Frame of Reference” o tema mais fresco deste verão.

O gosto pela diversidade ao longo de cada faixa está bem patente ainda na original versão (em trio de sax, contrabaixo e bateria) do clássico “Countdown”, de John Coltrane, em cuja primeira parte reina uma liberdade quase total, para apenas após um solo de bateria se tornar explícita a conhecida melodia do tema. O outro tema do repertório do jazz aqui tomado por Van Gelder (em duo com o pianista) é “’Round Midnight”, o qual (tal como “Peter and the Wolf” ou o explicitamente intitulado “Blues 2011”) não resulta a um nível tão elevado quanto as restantes faixas do disco, sem que por isso deixe de constituir uma interessante revisão de uma das minhas favoritas baladas de sempre.

Uma palavra final terá de ir para uma secção rítmica robusta, sempre alerta e interventiva, que por várias vezes me traz à mente o tipo de trabalho característico da saudosa dupla Grenadier–Rossy ao lado de Brad Mehldau. Craig Weinrib, em particular, é um baterista com uma abordagem raramente previsível; a impressão inicial de que poderia estar perante um anti-virtuoso rapidamente se transformou na certeza de que se trata de um músico que bem sabe que, no jazz, o “factor surpresa” é sempre mais importante do que a mera demonstração de virtuosismo e técnica.

Frame of Reference é, seguramente, uma das grandes estreias do ano!

Paulo Barbosa

“Frame of Reference certainly is one of the brightest stars of the year.”

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